A VERDADE EM POPPER

Publicado: novembro 8, 2011 em Artigo, Popper

Kaline Ferreira Davi

A VERDADE EM POPPER
Conhecer um pouco de Karl Popper nas aulas de metodologia científica ministrada pelo professor Edivaldo Boaventura na UFBA e desvendar parte de seu pensamento, foi um dos maiores prazeres revelados na vida acadêmica.
O interesse surgiu basicamente pela da grande modificação que ele causou na concepção de verdade que imperava até as primeiras décadas do século XX, e que alterou conseqüentemente toda estrutura da busca pelo conhecimento científico.
Não foram poucos aqueles que o criticaram, o que, utilizando a sua própria teoria é algo positivo, pois a crítica faz evoluir o conhecimento. Dentre os seus críticos mais ferrenhos estão os membros da Escola Frankfurtiana destacando Habermas, Thomas Kuhn e Lakatos.
Malgrado as críticas, também não são poucos os simpatizantes de suas teorias, adeptos que fazem parte de diversos ramos da ciência, o que demonstra que seu pensamento revolucionário é de extrema utilidade científica. Na biologia, um grupo seleto de biólogos se seduziram pela teoria de Popper e pelo menos três deles ganharam o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia – Peter Medawar, John Eccles e Jacques Monod – não poupando elogios ao filósofo. Peter Medawar chegou a afirmar que Popper, sem dúvida, foi o maior filósofo da ciência que já existiu.
Nos domínios da arte também não faltaram louvores a Popper, o que ficou por conta de Ernst Gombrich, que chegou a dizer que se sentiria honrado se alguém notasse em seus escritos alguma influência de Popper.
Em sua obra Conhecimento Objetivo – Uma Abordagem Evolucionária, que é uma de suas últimas obras, Popper mostra-se ressentido com o fato de que poucos filósofos apoiaram a tese de que ele resolveu o problema da indução, e acrescenta que várias obras recentes são influenciadas pelo seu pensamento, embora não lhe atribuam nenhum crédito por isso; e outras, citam a sua obra de forma distorcida, atribuindo-lhe opiniões que nunca sustentou, ou criticando-o com base em incompreensões. (POPPER, 1999, p.13)
O que Popper faz no primeiro capítulo desse livro foi enfatizar o grande feito que ele próprio se atribuiu, que foi o rompimento com o conhecimento indutivo, reinante à época, o que, embora existam vozes dissonantes, foi o bastante para distanciá-lo dos filósofos do Círculo de Viena.
É enfática a recusa de Popper em aceitar o título de positivista, o que reputa como um engano que teve início com a tolerância dos membros do Círculo em analisar suas obras e até dar publicidade as suas idéias, mesmo em oposição à deles.
Quando acusado de positivista pelos frankfurtianos Popper retruca afirmando que:
“[…] eu não nego decerto a possibilidade de estender o termo positivista até que ele abranja todos os que tenham algum interesse pelas ciências naturais, de forma a que venha ser aplicado até aos adversários do positivismo, como eu próprio. Sustento apenas que tal procedimento não é nem honesto nem apto a esclarecer o assunto. […] eu sempre lutei contra as estreitezas das teorias ‘cientificistas’ do conhecimento e, especialmente contra todas as formas de empirismo sensualista. Eu lutei contra a imitação das ciências naturais pelas ciências sociais e pelo ponto de vista de que a epistemologia positiva é inadequada até mesmo em sua análise das ciências naturais, as quais, de fato, não são generalizações cuidadosas da observação, como crê usualmente, mas são essencialmente especulativas e ousadas […]” (BARRETO, p.15)
Infere-se desse excerto que toda a angústia de Popper em ser considerado positivista, reside no fato de que essa conclusão deriva de uma análise insatisfatória de sua obra, ou de uma má compreensão. Ele chega a acusar aqueles que o julgam positivista de conhecerem sua obra apenas de segunda mão. Em verdade, o que de útil e prático se retira dessa discussão sobre a pertença de Popper ao Círculo de Viena se resume em ressaltar a crucial semelhança que seu pensamento tinha com o positivismo, a importância da prova empírica, o que era comum em Popper e nos positivistas vienenses.
O que não se pode concluir diante da incontestável semelhança, é que não existiam contradições entre o pensamento de Popper e o dos positivistas. A questão é determinar qual o critério para sopesar entre semelhanças e contradições e precisar a corrente de filiação de um filósofo.
Inquestionavelmente Popper afastou por completo a idéia da verificação de uma teoria através da experiência, o que revelaria a verdade de um caso particular a ser aplicado genericamente – base do raciocínio indutivo. O que ele defendia e acreditava era na experimentação capaz de testar uma hipótese num caso particular, o que levaria a certeza apenas quando a hipótese sufragasse aos testes, pois, do contrário, caso ultrapassasse bem aos testes, haveria corroboração e não certeza.
A teoria falseacionista de Popper tem acento em três pilares construídos por ele mesmo, a idéia de testabilidade, corroboração e alcance da verossimilhança.
A testabilidade advém da idéia de que os enunciados ou teses são hipóteses que deverão ser testadas para avaliar a sua falseabilidade. O que demonstra ser a teoria de Popper essencialmente negativa. A teoria de que todos os cisnes são brancos não pode ser comprovada pela constatação de cisnes brancos em toda parte do mundo, mas, ela proíbe que existam cisnes de qualquer outra cor em qualquer lugar, assim, o potencial falseador dessa teoria é imenso, basta que seja encontrado um cisne negro em algum lugar para que ela seja falseada.
A idéia de corroboração se relaciona com o prestígio passado da teoria, atesta o modo como ela resolveu seus problemas num certo tempo, para isso, é levada em consideração a severidade dos testes que foi submetida e a forma como ela reagiu a esses testes. “A corroboração é um revelador relato de atuação passada.” (POPPER, 1999, p.28). Popper faz questão de dar ênfase ao caráter de relato do passado da corroboração, justamente porque pretende demonstrar que nunca quis induzir os seus leitores a pensarem que fazia uma projeção do sucesso futuro da teoria testada. O que desautorizaria o que defende, já que desta forma estaria propagando uma teoria indutivista.
Certas pessoas pensaram que a expressão provar sua aptidão para sobreviver mostra que eu aqui pretendia falar de uma aptidão para sobreviver no futuro, para resistir a testes futuros. Lastimo se induzir alguém em erro, mas só posso dizer que não fui eu a misturar a metáfora darwiniana. Ninguém espera que uma espécie que sobreviveu no passado sobreviva no futuro em razão disso […] Seria absurdo sugerir que a sobrevivência darwiniana envolva, de algum modo, uma expectativa de cada espécie que até aqui sobreviveu e continue a sobreviver. (Quem diria que é muito alta a expectativa de vida de nossa própria espécie?). (POPPER, 1999, p.29).
O que Popper afirmou sobre corroboração é que ela é escalonada em graus, que variam entre alto e baixo, devido ao modo como a teoria sobreviveu aos testes, e em relação à severidade dos testes aplicados.
Quanto à verossimilitude , ele admite poder chegar a uma maior proximidade com a verdade, o que ocorre é uma má compreensão do sentido que para ele tem a palavra verossimilhança. Ele a define em termos de probabilidade lógica, aproximando a verossimilhança da noção de senso comum de Tarski , que é a maior ou menor proximidade de uma teoria com os fatos, com a realidade.
Assim, para demonstrar os equívocos em que a noção de senso comum incide e das quais Popper terá que se libertar, ele se utiliza de uma teoria que denomina de “teoria do balde mental”, que, segundo ele “no mundo filosófico, esta teoria é melhor conhecida pelo nome mais nobre de teoria da tábula rasa”, a qual compara nossa mente a um balde vazio e nesse balde entra material pela abertura, que representa os nossos sentidos, o que demonstra que todo o conhecimento humano é recebido através de nossos sentidos.
Para Popper, a teoria do balde é absolutamente equivocada ao afirmar que o conhecimento consiste em coisas que vêm de fora e nos preenchem; e ao afirmar que o conhecimento mais puro e não adulterados são os ele mentais, aqueles que não foram impregnado por nossas constatações pessoais, ou seja, o conhecimento absorvido passivamente, antes da digestão intelectual.
Deduz-se facilmente que o erro dessa teoria do senso comum é considerar como conhecimento puro o conhecimento elementar, recebido passivamente, sem acréscimos de nossas constatações pessoais, pois para esses teóricos o conhecimento que avança da pura recepção é um conhecimento duvidoso.
Na verdade o que ocorre é que os seres humanos, diferentemente do que os teóricos da teoria do senso comum pregam, necessitam de um conhecimento mais profundo, que ultrapasse os meros dados coletados, o que só se obtém através de associação de idéias.
A partir desse raciocínio Popper demonstra que a meta da ciência é a verossimilitude. Haja vista que em cada etapa da vida e do desenvolvimento de um organismo temos de admitir a existência de conhecimento por associação.
Concordantemente, o crescimento de todo conhecimento consiste na modificação de conhecimento prévio – ou sua alteração, ou sua rejeição em ampla escala. O conhecimento nunca começa do nada, mas sempre de algum conhecimento de base – conhecimento que no momento é tido como certo – juntamente com algumas dificuldades, alguns problemas. Estes, via de regra, surgem do choque entre, de um lado, expectativas de nosso conhecimento de base e, de outro, algumas novas descobertas, tais como nossas observações ou algumas hipóteses sugeridas por elas. (POPPER, 1999, p.75)
O que Popper demonstra é que a verossimilitude que ele acredita e que considera capaz de ser atingida pela corroboração das teorias é o fortalecimento da capacidade daquele conhecimento corroborado gerar novos conhecimentos. Exemplificando: se a teoria da relatividade foi corroborada em grau maior do que a teoria de Newton, isso quer dizer que a teoria da relatividade é mais verossímil, ou seja, tem maior potencial de gerar a partir dela conhecimentos novos e válidos.
Daí se extrai que a acusação de que Popper na verdade relacionou a corroboração e a verossimilitude através de um raciocínio indutivo, não procede, uma vez que ele não contradisse o caráter da corroboração de relato da atuação passada da teoria, o que ele fez foi emprestar uma conotação diferente ao vocábulo – verossimilhança – que denota maior potencial para produzir novos conhecimentos e não potencial de verdade.
Exatamente pra acreditar no alcance de uma verdade sempre provisória, a questão de segurança na base empírica não tem para ele a importância que tem para os indutivistas.
Vale transcrever excerto de seu livro A lógica da pesquisa científica:
A base empírica da ciência objetiva nada tem, portanto, de absoluto. A ciência repousa em base firme. A estrutura de suas teorias levanta-se, por assim dizer, num pântano. Semelha-se a um edifício construído sobre pilares. Os pilares são enterrados no pântano, mas não em qualquer base natural ou dada. Se deixarmos de enterrar mais profundamente esses pilares, não o fazemos por termos encontrado terreno firme. Simplesmente nos detemos quando achamos que os pilares estão suficientemente assentados para sustentar a estrutura – pelo menos por algum tempo. (p.125).
Com essa passagem Popper não deixa dúvida de que a base empírica nunca é suficientemente segura, e isso é inteiramente justificável perante a teoria que defende, onde nenhum conhecimento leva a verdade absoluta, mas apenas a hipóteses falseáveis.
Depois de estudar Popper e suas principais obras não resta dúvida sobre a grande importância desse filósofo para a história, política, economia, enfim para os ramos das ciências sociais e naturais.
Popper rompe completamente com o rumo que, até o século XX, estavam dando à filosofia das ciências. Ele mostra uma feição de verdade que condiz exatamente com o que Sócrates propunha como meta para a filosofia – a busca incessante de respostas.
Seguindo a orientação de Popper o conhecimento será sempre mutável, e as certezas sempre duvidosas, o que, será suficiente para motivar o homem e nunca deixar que ele se acomode diante de uma aparente verdade.
A idéia de verificar hipóteses e confirma-las através de experiências, foi o método indutivista reinante desde Aristóteles até os positivistas que antecederam Popper. A partir dele a filosofia deu um salto, pois até aí ninguém questionava a busca por uma verdade absoluta e estagnante através e raciocínios positivos.
O que Popper propôs foi uma revolução de idéias, não existem certezas, a indução não serve para comprovar nada e nada é comprovável, apenas falseável. Imaginemos à época, como as idéias de Popper desestruturaram todo um sistema, que se apoiava numa base empírica indutiva que Popper destrói, para ele não existe sequer uma base sólida para o conhecimento, muito menos uma base empírica indutiva.
Ele foi um filósofo da modernidade, viveu no século XX e suas idéias são atuais e vigoram até os dias de hoje influenciando em muito a metodologia das ciências, inclusive das ciências sociais.
Foi Popper quem primeiro enfatizou a idéia de um problema de pesquisa. Ele afirma que o conhecimento é gerado a partir da tensão entre a ignorância e o conhecimento que já possuímos. Com efeito:
[…] conhecemos muito, mas nossa ignorância é sóbria e ilimitada, inclusive nos campos das próprias ciências naturais (primeira tese). No entanto, apenas aparentemente há contradição entre essas duas teses, pois é do desencontro entre tais situações que surge a tensão que impulsiona o conhecimento. Cabe então à lógica do conhecimento discutir tal tensão que impulsiona o conhecimento […].
Coube a Popper a problematização das observações e percepções como ponto de partida para a pesquisa, que antes, era impulsionada apenas pela percepção ou observação passiva.
Ele propõe que a qualidade de uma pesquisa científica está no ajuste do problema e na qualidade das respostas sugeridas, que nada mais são do que as hipóteses.
[…] é o caráter e a qualidade do problema que, e também, é claro, a audácia e a originalidade da solução sugerida, que determinam o valor ou a ausência do valor de uma empresa científica […].
O que é isso senão a descrição do modelo metodológico que utilizamos hoje?
Autores atuais que escrevem e se dedicam ao tema metodologia da pesquisa científica, ressaltam a importância do problema de pesquisa e das hipóteses formuladas a partir dele vejamos:
Toda pesquisa inicia-se com algum tipo de problema. Contudo defini-lo não é uma tarefa fácil, pois são várias as suas acepções. Especificamente no caso da realização de uma pesquisa, o que interessa é o problema científico.”
[…]
O raciocínio hipotético é usual em pesquisa, pois pode ser confirmado ou não no desenvolvimento da investigação. As hipóteses são instrumentos típicos das ciências físicas que vieram enriquecer a pesquisa social […] (BOAVENTURA, 2004).
Com base nessas considerações pode-se dizer que um problema é de natureza científica quando envolvem variáveis que pode ser tidas como testáveis […] (GIL, 2002).
Diante das afirmações colhidas de obras de nosso tempo, não há como discordar que Popper é atual e que influenciou em muito a metodologia científica aplicada nos dias de hoje, inclusive nas ciências sociais.
Reverenciemos esse gigante da filosofia!

REFERÊNCIAS
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BARRETO, Túlio Velho. Positivismo versus teoria crítica em torno do debate entre Karl Popper e Theodor Adorno acerca do método das ciências sociais. Fundação Joaquim Nabuco. n. 106/2001 março. Disponível em: . Acesso em: 08/05/2006.
BOAVENTURA, Edivaldo. Metodologia da Pesquisa, São Paulo: Atlas, 2004.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia, Ática, São Paulo: 2005.
CHIBENI, Silvio Seno, Observações sobre as relações entre a ciência e a filosofia. Disponível em: http://www.unicamp.br/~chibeni/texdid/cienfilo.doc Acessado em: 23.05.05, às 22:03h, São Paulo.
FEIJÒ, Ricardo. Metodologia e filosofia da Ciência: Aplicação na Teoria social e estudo de caso, Atlas, São Paulo:2003.
FRANCELIN, Marivalde Moacir. Ciência, senso comum e revoluções científicas: ressonâncias e paradoxos. Ci. Inf. [online]. set./dez. 2004, vol.33, no.3 [citado 23 Maio 2006]. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100 Acessado em: 22/05/2006
GIL, Antonio Carlos. Como Elaborar Projetos de Pesquisa, São Paulo: Atlas, 2002.
HOUAISS, Antonio. Dicionário da Língia Portuguesa, Objetiva, 1990
MAZZOTI, Alda Judith. GEWANDSZAIDER, Fernando. O Método nas ciências naturais e sociais: Pesquisa quantitativa e qualitativa. Pioneira Thompsom Leaning, 2002.
PELUSO, Luis A. A filosofia de Karl Popper. Campinas: Papirus/PUCCAMP, 1995.
POPPER, Karl. A lógica da pesquisa cientìfica. Tradução: Leônidas Hegenberg e Octanny Mota. São Paulo. Editora Cultrix: 2001.
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STEGMULLER, Wolfgang. A Filosofia Contemporânea. Vol. 1, São Paulo, EPU, 1977.
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