CONSIDERAÇÕES ACERCA DO MÉTODO NA CIÊNCIA DO DIREITO

Publicado: outubro 29, 2013 em Artigo

JOSÉ REIS NETO

1. INTRODUÇÃO

O método, apesar de ser elemento essencial na produção do conhecimento, não recebe a adequada atenção dos estudiosos do Direito, que, no mais das vezes, direcionam seus estudos a problemas de ordem prática (ADEODATO, 2007). Esta afirmação é referendada pela experiência pessoal do autor, que somente veio a enfrentar a questão após haver concluído toda a graduação.
Diante desta carência, a proposta do presente trabalho é realizar uma introdução ao problema do método, alertando para a importância do tema e fornecendo um panorama superficial do estado atual da questão nos demais ramos do conhecimento, e de como algumas proposições de outras áreas podem ser úteis para o conhecimento jurídico.
Para desempenhar tal mister, parte-se da conceituação de método em geral, analisando posteriormente o método científico. Neste ponto, ressalta-se como o paradigma dominante de ciência vem monopolizando a produção do saber, e como este fenômeno produziu efeitos na ciência jurídica. A Teoria Pura do Direito é considerada como principal produto deste fenômeno.
Passe-se então para uma crítica a esta concepção estrita de conhecimento, propugnando uma abertura epistemológica e metodológica da ciência jurídica, justificando a adoção do tudo vale de Paul Feyerabend (2007) ao Direito para torná-lo mais adequado ao seu papel de realização de um projeto de sociedade (MACHADO, 1968).

2. O MÉTODO CIENTÍFICO

Conforme anota Leonidas Hegenberg ([19–], p. 115), método vem do grego méthodos, significando “caminho para chegar a um fim” , acrescentando o autor que esse caminho pode não haver sido “fixado de antemão de modo refletido e deliberado”.
A primeira conclusão óbvia a que leva a etimologia da palavra é que não será possível realizar nada – nem ciência nem a mais simples tarefa cotidiana – sem um método.
Igualmente óbvio é que o fim pretendido deve influenciar na escolha do caminho, e que muitas vezes a opção pelo caminho incorreto pode determinar o fracasso da jornada. A relação entre meios e fins é de co-determinação.
Nos meios científicos, método e metodologia são expressões de uso corrente, possuindo, a uma primeira vista, significação idêntica ao sentido ordinário visto acima. De fato, todas as considerações acima se aplicam ao método científico, o que justifica a posição central que a metodologia possui na epistemologia .
Uma análise mais acurada, contudo, demonstra que, ao longo da história, método científico é uma expressão que assimilou um significação própria. A importância da história na significação de um conceito foi ressaltada por Hans-Georg Gadamer (2005), que cunhou a noção de “história efeitual”. De acordo com o referido pensador, a história incorpora elementos à forma como compreendemos, de modo que tais características incorporam-se ao conceito.
Pois bem, como o paradigma moderno – também denominado paradigma dominante (SANTOS, 2006) ou paradigma positivista – de ciência domina o imaginário científico já há muito tempo (apesar de estar recebendo críticas contundentes), também seu método tornou-se hegemônico, de modo que as expressões “método científico” e “método moderno” tornaram-se equivalentes em muitos contextos. A esta normalização do paradigma moderno (KUHN, 2006), soma-se o fato de ser este modelo totalitário, negando critério de cientificidade a outras formas de conhecimento (SANTOS, 2006), questões que serão aprofundadas na seqüência.
Essa situação produz, evidentemente, uma redução das possibilidades de produção de conhecimento (FEYERABEND, 2007). Havendo apenas uma técnica de investigação, tudo que estiver fora das possibilidades desta técnica específica deixará de ser percebido.
O problema adquire ainda mais relevância quando o conceito de ciência é definido em função do método, opção defendida pela imensa maioria dos adeptos do paradigma dominante.
A título de exemplo, Mario Bunge (1985, p. 19) afirma textualmente que conhecimento científico é aquele “obtenido mediante el método de la ciencia y [que] puede volver a someterse a prueba, enriquecerse y, llegado el caso, superarse mediante el mismo método”.
Karl Popper (2004, p. 16), de modo semelhante, afirma que “a assim chamada objetividade da ciência repousa na objetividade do método crítico”, conferindo desta forma ao método o papel de separar o que seria puro arbítrio e subjetividade do conhecimento científico .
Com isso, além da importância instrumental já destacada, o método em ciência exerce uma função de legitimação científica do conhecimento produzido, ao menos para a concepção científica majoritária.
Delineada a apropriação do método científico pelo paradigma dominante, cumpre examinar quais as características deste modelo, e quais os reflexos desta situação no metodologia científica em geral, e no Direito em particular.

3. ESBOÇO DO MÉTODO CIENTÍFICO NO PARADIGMA DOMINANTE

De início, cumpre trazer a advertência feita por Paul Feyerabend (2007) de que não existe um paradigma único de ciência, mas vários modelos diferentes arbitrariamente considerados como um único. A despeito de ser verdadeira esta afirmação, existem algumas características mais ou menos comuns às ciências produzidas em consonância com o modelo científico moderno/dominante, que será considerado uniforme para fins didáticos.
Feita esta ressalva, passar-se-á a um panorama superficial do referido modelo, suficiente aos objetivos do presente trabalho, utilizando-se para esse mister principalmente as lições de Boaventura de Souza Santos (2006).
Sustenta o sociólogo português que o modelo epistemológico ainda majoritário é oriundo da Era Moderna, sofrendo poucas modificações ao longo da história .
Trata-se de um “modelo totalitário, na medida em que nega o caráter racional a todas as formas de conhecimento que não se pautarem pelos seus princípios epistemológicos e pelas suas regras metodológicas” (SANTOS, 2006, p. 21).
Entre os referidos princípios epistemológicos está a primazia das explicações causais (SANTOS, 2006, p. 09). Na transcrição literal, “as leis da ciência moderna são um tipo de causa formal, que privilegia o como funciona das coisas em detrimento de qual o agente ou qual o fim das coisas” (SANTOS, 2006, p. 30, grifos originais).
Este conhecimento causal “aspira à formulação de leis, à luz de regularidades observadas, com vistas a prever o comportamento futuro dos fenómenos” (SANTOS, 2006, p. 29), supostamente invariável no tempo e no espaço (SANTOS, 2006, p. 29).
Com isso, objetiva-se o controle sobre a natureza (SANTOS, 2006, p. 25), em lugar da compreensão dos fenômenos.
Para a produção deste conhecimento, o método defendido é a “observação descomprometida e livre, sistemática e tanto quanto possível rigorosa dos fenómenos naturais” (SANTOS, 2006, p. 25).
A matemática ocupa, neste contexto, posição central, de onde derivam duas conseqüências principais: a) “conhecer significa quantificar” (SANTOS, 2006, p. 27), preterindo-se as qualidades intrínsecas dos objetos em favor dos padrões de aferição; b) “o método científico resulta na redução da complexidade” (SANTOS, 2006, p. 28) do objeto de estudo, ou seja, de sua divisão em partes menores.
Também se deve destacar a importância das dicotomias nesta lógica de redução de complexidade, isolando-se os diversos elementos integrantes de uma realidade ou fenômeno em compartimentos estanques (conhecimento científico X senso comum; natureza X pessoa humana; etc.) (SANTOS, 2006). Também os ramos do conhecimento não se comunicam (SANTOS, 2006).
Há apenas duas formas de produção de conhecimento em consonância com estes postulados: “as disciplinas formais da lógica e da matemática e as ciências empíricas segundo o modelo mecanicista das ciências naturais” (SANTOS, 2006, p. 33), conclusão que relega as ciências sociais a uma posição marginal.

3.1. RAZÕES PARA O PREDOMÍNIO DESTE MODELO

O predomínio desta concepção de ciência não possui razões transcendentais ou uma justificação lógica insofismável. Decorre, em verdade, de ser ele o que melhor atende aos ideais das classes que ocupam a centralidade do processo de globalização cultural, ou seja, os Estados capitalistas ocidentais desenvolvidos, sendo impostos por eles aos demais países (FEYERABEND, 2007) .
Afinal, com a consolidação do Estado burguês, uma visão utilitarista e acrítica das ciências era desejada pela classe dominante, e acabou por se tornar o ideal científico deste modelo de organização social (SANTOS, 2006). O objetivo que se tem com as ciências é de controle da natureza (SANTOS, 2006), e o paradigma dominante tem sido o mais eficiente para tanto, inclusive no que tange à produção de armas (FEYERABEND, 2007).
O predomínio desta forma de produção de saberes também se justifica por haver a ciência moderna se tornado o que Thomas Kuhn (2006) chama de “ciência normal”, ou seja, é o modelo que, em regra, os novos cientistas aprendem, muitas vezes sem maiores questionamentos de ordem epistemológica. A produção científica restringe-se ao desenvolvimento das questões já levantadas pelos precursores, contribuindo para uma estabilização (KUHN, 2006).

4. A INFLUÊNCIA DO PARADIGMA DOMINANTE NO DIREITO. A TEORIA “PURA” DE KELSEN

Conforme exposto acima, o paradigma de ciência dominante no Estado burguês é totalitário, e recusa o status de cientificidade aos conhecimentos que não se enquadrarem como lógica matemática ou ciência empírica.
Confrontadas com este problema, as ciências sociais em geral dividiram-se, entre as que preferiram buscar um estatuto epistemológico próprio e outros que tentaram adequar-se a este modelo (SANTOS, 2006).
Dentre os cientistas sociais que optaram por enquadrar-se ao estatuto epistemológico e metodológico dominante, a imensa maioria entendeu que as ciências sociais deveriam adotar uma postura empírica (SANTOS, 2006, p. 33), inserindo-se nesta escola Émile Durkheim (2007), “considerado um dos pais da sociologia moderna” (WIKIPEDIA, 2007).
Na Ciência do Direito, no entanto, os que aderiram aos postulados do paradigma científico dominante preferiram realizar uma ciência mais próxima da lógica e da matemática, ficando conhecidos pela alcunha genérica de positivistas.
Conforme anota António Menezes Cordeiro (2002), diante da elaboração do Código Civil alemão e da pressão do modelo positivista naturalista de ciência – que chamamos paradigma dominante –, o Direito tentou transformar-se numa “especulação idealista transcendental”, de matriz kantiana, preocupado com o desenvolvimento de formas idealmente aplicáveis a qualquer conteúdo.
O retrocitado autor salienta que:
O formalismo e o positivismo, apresentados, respectivamente, como o predomínio de estruturas gnoseológicas de tipo neo-kantiano e como a recusa, na Ciência do Direito, de considerações não estritamente jurídico-positivas, constituem o grande lastro metodológico do século vinte.
[…]
Este lastro, a sua apreciação crítica e as subseqüentes tentativas de superação condicionam todo o pensamento jurídico deste final de século. (2002, p. XV-XVI).

De todos os juristas que enveredaram por este caminho, o que angariou mais respeito e exerce maior influência sobre o pensamento jurídico brasileiro é Hans Kelsen, autor da Teoria Pura do Direito.
Kelsen reconhece sua filiação positivista, assumindo que seu objetivo era criar uma teoria “purificada de toda ideologia política e de todos os elementos de ciência natural” (2006, p. XI), de modo a atingir o “ideal de toda ciência: objetividade e exatidão” (2006, p. XI). O autor também corrobora a afirmação que abre este parágrafo ao pugnar por “uma ciência objetiva que se limita a descrever o seu objeto” (p. XVIII) (modelo representacional de verdade).
Não fossem suficientes os argumentos anteriores, Hans Kelsen afirmou, no prefácio à primeira edição de sua teoria pura, que as ciências sociais encontravam-se em estágio pouco evoluído se comparadas às ciências naturais (2006, p. XIV), afirmação que justifica sua opção epistemológica pela utilização do paradigma moderno de ciência, fundando-se na utilização de modelos lógicos.
Para alcançar seus objetivos, a teoria pura do direito defende “princípios de pureza metodológica do conhecimento jurídico-científico” (KELSEN, 2006, p. XVII), como não poderia deixar de ser. É nessa esteira que inicia sua obra com uma redução de complexidade: “a Teoria Pura do Direito é uma teoria do Direito positivo” (KELSEN, 2006, p. 1).
A identificação do direito à norma , com a conseqüente exclusão de todos os demais elementos porventura identificados com o fenômeno jurídico (valores, fatos sociais etc.) é o que garante a pureza para Hans Kelsen, configurando, nas palavras daquele autor, o “princípio metodológico fundamental” (2006, p. 01) de sua teoria.
Não se imagine, com isso, que o jusfilósofo vienense ignorava a conexão da Ciência do Direito com outros ramos do saber, como psicologia, ética e teoria política. Algo tão evidente não escaparia a alguém com a capacidade intelectual de Kelsen, e esta afirmação é por ele feita expressamente (2006, p. 01-02).
Mas o paradigma de ciência moderna, ao qual este jusfilósofo adere, parte da rígida compartimentalização de saberes, e a assimilação de elementos “estranhos” ao direito (ou seja, tudo aquilo que não for norma) redundaria num “sincretismo metodológico que obscurece a essência da ciência jurídica e dilui os limites que lhe são impostos pela natureza do seu objeto” (KELSEN, 2006, p. 01).
O método utilizado é lógico-formal normativo – não causal, já que não se trabalha com “o conhecimento, informado pela lei da causalidade, de processos reais” (KELSEN, 2006, p. 84) –. Os textos legais devem ser examinados para deles serem retiradas as normas, descritas sob “uma fórmula geral […]: sob determinados pressupostos, fixados, pela ordem jurídica, deve efetivar-se um ato de coerção, pela mesma ordem jurídica estabelecida” (KELSEN, 2006, p. 86). Ou, por outras palavras, a proposição jurídica deve adequar-se à forma “quando A é, B deve ser” (KELSEN, 2006, p. 87).
A atividade do cientista do Direito, sob a perspectiva kelseniana, significa extrair dos textos as normas. E organizar as diversas normas que compõem um ordenamento jurídico de modo a formar um sistema jurídico , em que as normas se inter-relacionam por derivação e fundamentação (KELSEN, 2006).
A decisão jurídica e a aplicação do direito são trabalhadas apenas no último capítulo da Teoria Pura do Direito, oportunidade em que Hans Kelsen permanece fiel aos seus princípios metodológicos: a norma aplicável deve ser a norma válida – fundamentada em norma hierarquicamente superior até a norma hipótetica fundamental –, independentemente do seu conteúdo.
Mas o ordenamento jurídico sempre deixa – de forma intencional ou não – uma margem de indeterminação (KELSEN, 2006, p. 388) a ser preenchida pelo executor, podendo, inclusive, oferecer mais de uma solução. A solução apresentada para esta questão segue a lógica positivista: o Direito chega até a descrição das soluções possíveis, sendo a opção por uma delas um ato de puro arbítrio, a ser examinado por outros ramos do saber (KELSEN, 2006).
Percebe-se que o grande defeito da Teoria Pura do Direito é transformar a Ciência do Direito numa disciplina lógica-formal, excluindo sua natureza de Ciência Social, e mais ainda sua qualidade de Ciência Social Aplicada . O uso do direito deixa de ocupar os juristas, passando à responsabilidade de políticos, sociólogos, psicólogos e outros cientistas. Àqueles resta apenas a sistematização.
Mas, então, porque prevalece este paradigma até o presente momento, ao menos numa perspectiva teórica? A resposta parece evidente, e já foi enunciada: a Teoria Pura permite que o Direito seja considerado uma ciência, de acordo com a concepção ainda dominante que se possui deste conceito. Claro, uma ciência de abrangência restrita, e talvez exatamente por isso uma ciência.

5. CRÍTICA À UTILIZAÇÃO DO PARADIGMA DOMINANTE NO DIREITO

Espera-se que neste ponto já esteja assentada a noção de insuficiência da Teoria Pura do Direito para a prática jurídica, defeito reconhecido pelo fundador desta escola (KELSEN, 2006) – que não via nisso um defeito –, bem como a principal função desta teoria: legitimar o conhecimento jurídico como científico, dentro da concepção fechada do paradigma moderno.
Neste tópico, espera-se demonstrar que este sacrifício, mais que excessivo, é injustificado.
Afinal, o modelo da ciência moderna é o único capaz de produzir um conhecimento absolutamente verdadeiro? A resposta negativa se impõe, porque: a) existem conhecimentos não-científicos; b) existem conhecimentos científicos produzidos fora do paradigma moderno (conquanto os adeptos do modelo dominante possam negar-lhes cientificidade); c) o método moderno não consegue produzir verdades absolutas.
Como já anotado (tópico III), o paradigma moderno trabalha com dicotomias e separações de saberes (SANTOS, 2006). Assim é que pugna por duas formas de conhecimento: conhecimento científico e conhecimento ordinário, que denominaremos senso comum .
Este último é posto numa posição de inferioridade (GADAMER, 2005) , mesmo quando é suficiente às necessidades humanas (FEYERABEND, 2007). Afinal, o modelo de saber implica a descrição do funcionamento por meio de leis, para fins de domínio sobre o objeto estudado (SANTOS, 2006).
Além disso, Paul Feyerabend (2007, p. 13) lembra que:
[…] não há apenas uma entidade chamada ‘ciência’, com princípios claramente definidos, mas […] a ciência compreende grande variedade de abordagens […] e que mesmo uma ciência particular como a física não passa de uma coleção dispersa de assuntos, […] cada um deles contendo tendência contrárias […].

Sobre a impossibilidade de produção de uma verdade absoluta por meio do método empírico, pode-se citar a crítica de Karl Popper, lembrada por Leônidas Hegenberg ([19–], p. 125-126). Segundo este, do ponto de vista lógico, por mais vezes que se verifique o fato não é possível atingir uma generalização, servindo a observação experimental apenas para falsear uma conclusão equivocada.
Boaventura de Souza Santos também expõe as fragilidades do paradigma dominante, sendo salutar, neste ponto, a menção ao pensamento de Gödel, que provou que “mesmo seguindo à risca as regras da lógica matemática, é possível formular proposições indecidíveis, proposições que não podem demonstrar nem refutar” (SANTOS, 2006, p. 45).

6. PROPOSTAS PARA UM NOVO PARADIGMA METODOLÓGICO: O TUDO VALE

Retomando as idéias expostas no princípio deste trabalho, o método é um caminho para se chegar a um fim. Portanto, antes de definir como chegar, é preciso escolher o destino.
Boaventura de Souza Santos (2006, p. 60) afirma que o objetivo de toda ciência deve ser a produção de “um conhecimento prudente para uma vida decente”, ou seja, “não pode ser apenas uma paradigma científico […], tem de ser também um paradigma social (o paradigma de uma vida decente).”
Se esta proposta pode causar celeuma entre lógicos e cientistas naturais, em Direito pode-se adotar este parâmetro de modo muito mais tranqüilo. De fato, entendendo-se que o paradigma científico da modernidade não pode monopolizar a produção do conhecimento, a Ciência do Direito deve abandonar as pretensões de pureza e objetividade, para abarcar de maneira mais ampla possível todos os elementos relativos à elaboração e implementação de um projeto de sociedade , este sim seu objetivo.
Evidentemente, isto implica um intercâmbio com diversos ramos do saber, o que deve ser incentivado. Boaventura de Souza Santos adverte acerca do artificialismo das sucessivas divisões operadas pelos positivistas, propondo que o conhecimento se estruture em torno de problemas, utilizando-se todos os conhecimentos disponíveis no enfrentamento destas questões (SANTOS, 2006).
No entanto, não há um único método que permita a consecução de todos os objetivos que possui o Direito. A solução para este problema é simples, quando se abandona os postulados epistemológicos/ideológicos positivistas de pureza: tudo vale nesta matéria (FEYERABEND, 2007).
De fato, a única justificativa para a unicidade das técnicas aplicáveis é de ordem ideológica, ou seja, decorrem da adoção de um paradigma restritivo em matéria de possibilidades científicas.
Dizer, contudo, que qualquer método é válido não significa falta de seriedade na condução da produção do conhecimento. Escolhido como mais eficiente o método estatístico, por exemplo, o tratamento do levantamento e análise de dados deve possuir todo o rigor possível.
Além da função instrumental, sem dúvida melhor atendida pela pluralidade metodológica, não se pode olvidar que o método também possui uma importante função na aceitação que os resultados de um estudo receberão.
Se os métodos escolhidos forem aceitos como adequados, não haverá problemas. Na hipótese contrária, a legitimação do conhecimento produzido poderá se dar pelos resultados, em lugar de fundar-se no procedimento.
Esta concepção pluralista permite, ainda, a reunião de diversas teorias do direito, inclusive a Teoria Pura, que oferece importantes critérios para a sistematização das normas, circunstância que favorece a solução de problemas. Da mesma forma a Tópica Jurídica pode ser utilizada, para oferecer soluções para as lacunas que não podem ser enquadradas no sistema (CORDEIRO, 2002, p. LI), e assim com todas as outras concepções epistemológicas que se mostrem úteis ao enfrentamento de um problema posto à apreciação.

7. CONCLUSÕES

À guisa de conclusão, pode-se lembrar que toda atividade exige um método, que deve ser escolhida em função do objetivo do cientista e exercerá influência sobre as conclusões a que se chegará. O método científico possui, ainda, a função de possibilitar a aceitação de resultados pela comunidade científica.
Se é certo que a importância do método exige que todo cientista lhe dedique atenção, também é que não há nenhum método capaz de produzir um conhecimento absoluto. As teorias da ciência que dizem o contrário baseiam-se em elementos ideológicos.
O Direito possui um objeto muito maior que a simples sistematização de normas: incluem-se no seu âmbito de abrangência a elaboração e execução de projetos de mundo (MACHADO, 1948).
Para isso, todos os instrumentos disponíveis devem ser utilizados, e o conhecimento que não puder ser legitimado pelo procedimento pode muito bem ser admitido e aplicado em virtude dos resultados que proporcionam.

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