DA METODOLOGIA PLURALISTA DENTRO DA SOCIEDADE PÓS-MODERNA

Publicado: fevereiro 10, 2015 em Artigo

Renato da Costa Lino de Góes Barros

SUMÁRIO: 1. Intróito. 2. Aspectos importantes da obra “Contra o Método”. 3. Do Discurso sobre as Ciências: Importantes contribuições. 4. Da adequação da proposta de Feyerabend à pós-modernidade. 5. Conclusão. 6. Referências.

RESUMO: O paradigma dominante da ciência moderna simplifica a complexidade da realidade. Tal fato implica diretamente na restrição do progresso alcançado. Com a crise deste paradigma, torna-se necessária à adoção de uma metodologia pluralista no intuito de viabilizar uma análise mais aprofundada das investigações realizadas, conduta esta que tornará possível à emancipação almejada.
Palavras-chave: Restrição ao progresso. Crise. Metodologia Pluralista. Emancipação.
ABSTRACT: The prevailing paradigm of the modern science simplifies the complexity of reality. Such fact implies directly in the restriction of the progress obtained. With the crises of paradigm, it is necessary to adopt a pluralist methodology aiming to promote a more elaborated analysis of the investigations made in order to enable the coveted emancipation to take place.
Keywords: Restriction to progress. Crisis. Pluralist Methodology. Emancipation.

1. INTRÓITO
Tal estudo focará sua análise sobre a adequação da metodologia pluralista, defendida por Paul Karl Feyerabend, à sociedade pós-moderna que tanto se discute atualmente. Para tanto, faz-se necessário, nestas linhas iniciais, uma breve apresentação do pesquisador estudado, que se fará com base nos dados levantados por Hegenberg (2005) e Feijó (2003).
Paul Karl Feyerabend, nascido em Viena em 1924, prestou serviço militar, lutando, inclusive, na II Guerra Mundial em nome do exército nazista.
Após a guerra, retomou seus estudos, doutorando-se em Filosofia. Ganhou bolsa para estudar em Cambridge, mudando-se, após a morte de Wittgenstein, para a London School, onde manteve contato com Popper.
Sob a influência de Popper, ousou ao defender a idéia de que é o significado que desce da teoria para experiência. Ou seja, a teoria pode ter significado próprio que não esteja vinculado com a experiência, uma vez que, segundo entendia, os termos adquiriam significados de acordo com o contexto teorético ao qual eles estivessem submetidos.
Nesta linha, os significados encontrados dependeriam da teoria escolhida, sendo que, em caso de teorias muito diferentes, os significados não poderiam ser nunca comparados.
Neste sentido, defendia que o pluralismo teorético estimularia o progresso da ciência, uma vez que, com o pensamento voltado para mais de uma teoria, diminuía-se os inconvenientes da espera decorrentes das dificuldades encontradas por uma teoria posta a prova.
E, após outras experiências vividas, avançou ainda seu pensamento no sentido de defender que não haveria regras úteis que pudessem ser recomendadas a quem pretendesse fazer ciência. Isto porque, segundo entendia, não haveria forma de fixação de metodologia, sem que a mesma inibisse o progresso.
Neste sentido, explica Ricardo Feijó (2003, p. 61) que Feyerabend acreditava que:
A história da ciência não apenas desautoriza a imposição de algum método rígido, como também ensina que, muitas vezes, os passos mais inovadores só foram possíveis porque os cientistas que os propuseram ousaram desobedecer a qualquer conjunto articulado de regras metodológicas.
Tais pensamentos, explicitados em sua obra “Against Method” (1970; em português, “Contra o Método”), receberam severas críticas que, em certos momentos, causaram constrangimentos ao aludido pesquisador.
Entretanto, mesmo assim, destaca Hegenberg a importância de tal obra, quando afirma (2005, p. 203) que:
No final do século XX e neste início de novo século, as questões de método deixaram de ocupar um posto de destaque no cenário filosófico. É possível que Feyerabend tenha contribuído para isso, mesmo não levando em conta o exagero de seu “Vale Tudo”. Avaliações melhores virão, por certo, quando estivermos um pouco mais distanciados de todas as questões aqui consideradas, para examiná-las de modo imparcial.
Entretanto, mesmo ainda próximo desta realidade, ou melhor, mesmo ainda imerso nesta (des)configurada dimensão pós-moderna, este trabalho propõe-se a fazer uma (ainda que breve) análise deste pensamento de Feyerabend, que em muito contribuiu para o aprofundamento de algumas reflexões acerca de relevantes questões metodológicas.

2. ASPECTOS IMPORTANTES DA OBRA “CONTRA O MÉTODO”
Parte Feyerabend (2007, p. 19), inicialmente, de uma tese, qual seja, que: “os eventos, os procedimentos e os resultados que constituem as ciências não têm uma estrutura comum; não há elementos que ocorram em toda investigação científica e estejam ausentes em outros lugares”.
Isto porque, segundo entende, a pesquisa que logra êxito não é aquela que obedece a padrões gerais, mas sim aquela que, utilizando-se de procedimentos e padrões nem sempre conhecidos, alcançam o progresso.
E, neste caminho, defende que (2007, p. 31) “a ciência é um empreendimento essencialmente anárquico: o anarquismo teórico é mais humanitário e mais apto a estimular o progresso do que suas alternativas que apregoam lei e ordem”.
Nesta linha, este “anarquismo” é apresentado em contraposição àquelas regras “ingênuas” e “simplórias” que os metodólogos tomavam como marco orientador.
Afinal, segundo entende (2007, p. 33):
Um meio complexo, contendo desenvolvimentos surpreendentes e imprevistos, demanda procedimentos complexos e desafia uma análise baseada em regras que tenham sido estabelecidas de antemão e sem levar em consideração as condições sempre cambiantes da história.
Explica, neste caminhar, que a educação científica, até então implantada, trabalha em sentido contrário ao quanto defendido ao simplificar a “ciência” através de seus participantes, criando uma tradição que é mantida por regras específicas.
E, neste sentido, indaga enfaticamente (2007, p. 34):
Mas será que é desejável dar apoio a tal tradição a ponto de excluir tudo mais? Devemos ceder-lhe os direitos exclusivos de negociar com o conhecimento, de modo que qualquer resultado obtido por outros métodos seja imediatamente rejeitado? E será que os cientistas invariavelmente permaneceram nos limites das tradições que definiram dessa maneira estreita?
Para o Autor, a resposta a estas indagações não poderia ser outra que não um “Não”! Isto porque tal postura impediria o conhecimento efetivo da verdade, que prescinde que não sejam restringidas de antemão as opções de exploração. Isso sem falar que tal postura iria de encontro à atitude humanista atualmente acolhida. Afinal, segundo defende (2007, p. 35):
A tentativa de fazer crescer a liberdade, de levar uma vida plena e gratificante e a tentativa correspondente de descobrir os segredos da natureza e do homem acarretam, portanto, a rejeição de todos os padrões universais e de todas as tradições rígidas. (Naturalmente, acarretam também a rejeição de grande parte da ciência contemporânea).
Constatou também Feyerabend (2007) que a idéia de um método imutável – absoluto – entra em conflito com os resultados da pesquisa histórica.
Isto porque, segundo afirma, não há uma única regra, ainda que sólida na epistemologia, que não seja desrespeitada em alguma oportunidade, violações estas que contribuem para o progresso.
Para ele (2007, p. 37): “Essa prática liberal, repito, não é apenas um fato da história da ciência. É tanto razoável quanto absolutamente necessária para o desenvolvimento do conhecimento”.
Para comprovar tal afirmativa, propõe Feyerabend (2007, p. 41) a descrever a situação pretendida:
Principiamos com uma firme convicção que é contrária à razão e à experiência da época. Essa convicção se dissemina e encontra apoio em outras crenças igualmente desarrazoadas, se é que não o são mais ainda (lei da inércia; o telescópio). A pesquisa é então desviada em novas direções, novos tipos de instrumentos são construídos, a “evidência” passa a ser relacionada às teorias em novas maneiras, até que surge uma ideologia rica o suficiente para prover argumentos independentes em defesa de qualquer de suas partes específicas, e versátil o suficiente para encontrar tais argumentos sempre que pareçam ser necessários.
Para tanto, revela que, quando se tenta compreender desenvolvimentos desta espécie, faz-se necessária à utilização das formas de expressão disponíveis que, muitas vezes, precisam ser distorcidas a fim de atenderem situações não conhecidas.
Assim, para o Autor, o anarquismo contribui para o progresso. Em contrapartida, deixa claro Feyerabend (2007, p. 42) que “a idéia do método fixo ou de uma teoria fixa da racionalidade baseia-se em uma concepção demasiado ingênua do homem e de suas circunstâncias sociais”.
E, neste caminho, complementa (2007, p. 42-43):
Para os que examinam o rico material fornecido pela história e não tem a intenção de empobrece-lo a fim de agradar a seus baixos instintos, a seu anseio por segurança intelectual na forma de clareza, precisão, “objetividade” e “verdade”, ficará claro que há apenas um princípio que pode ser defendido em todas as circunstâncias e em todos os estágios do desenvolvimento humano. É o princípio de que tudo vale.

3. DO “DISCURSO SOBRE AS CIÊNCIAS”: IMPORTANTES CONTRIBUIÇÕES
Nesta linha de intelecção, muito embora as inúmeras e ferozes críticas sofridas pelo pensamento feyerabeniano ao longo das três últimas décadas, prosseguirá este estudo no sentido de demonstrar que, na atualidade, tal pensamento mostra-se perfeitamente adequado aos embasamentos teóricos da pós-modernidade.
E, necessitado de subsídios para tanto, apóia-se este estudo no pensamento que Boaventura de Souza Santos sustentou em seu clássico Discurso sobre as Ciências .
Para Boaventura de Souza Santos (2006, p. 15), vive-se “um tempo de transição, síncrone com muita coisa que está além ou aquém dele, mas em descompasso em relação a tudo o que habita”.
Lembra Souza Santos (2006) que o modelo de racionalidade que constituiu a ciência moderna desenvolveu-se a partir da revolução científica do século XVI, focando-se inicialmente nas ciências naturais. Com a extensão às ciências sociais, passou-se a ter um modelo global de racionalidade científica que se diferencia de duas formas de conhecimento não científico, quais sejam, o senso comum e as chamadas humanidades.
Nesta linha, pontua Souza Santos (2006) ser tal racionalidade totalitária, pois negaria caráter racional a todas as formas de conhecimento que não se pautassem pelos seus princípios epistemológicos e pelas suas regras metodológicas, sendo esta a sua maior característica.
E, nesta ótica, as ciências matemáticas ganharam relevância, pois, como lembrado por Souza Santos (2006, p. 27), exprimiriam “não só o instrumento privilegiado da análise, como também a lógica da investigação, como ainda o modelo de representação da própria estrutura da matéria”.
Em decorrência deste prestígio da matemática na ciência moderna, conhecer passou a ser quantificar, fato este que levou a desqualificação do objeto, pois o que não era quantificável era cientificamente irrelevante. Ademais, implicou também na adoção do método científico de redução de complexidade, pois conhecer passou a ser entendido como dividir e classificar para posteriormente identificar a relação entre as partes do todo.
Assim, percebeu Souza Santos (2006, p. 29) que:
A natureza teórica do conhecimento científico decorre dos pressupostos epistemológicos e das regras metodológicas já referidas. É um conhecimento causal que aspira à formulação de leis, à luz da regularidade observadas, com vista a prever o comportamento futuro dos fenômenos.
Nesta linha, um conhecimento baseado na formulação de leis tem como pressuposto metateórico a idéia de ordem e de estabilidade do mundo. Neste contexto, bem assevera Souza Santos (2006, p. 30):
Um conhecimento baseado na formulação de leis tem como pressuposto metateórico a idéia de ordem e de estabilidade no mundo, a idéia de que o passado se repete no futuro. Segundo a mecânica newtoniana, o mundo da matéria é uma máquina cujas operações se podem determinar exatamente por meio de leis físicas e matemáticas, um mundo estático e eterno a flutuar num espaço vazio, um mundo que o racionalismo cartesiano torna cognoscível por via de sua decomposição nos elementos que o constituem. Esta idéia do mundo-máquina é de tal modo poderosa que se vai transformar na grande hipótese universal da época moderna, o macanicismo.
Acreditava-se, em virtude do exposto, que tal como foi possível descobrir as leis da natureza seria possível descobrir as leis da sociedade.
Sob esta ótica, no século XIX, as ciências sociais nasceram para ser empíricas, entretanto divergências surgiram entre aqueles que acreditavam que estas ciências careceriam de metodologias próprias e aqueles que acreditavam ser possível a aplicação dos critérios da cientificidade das ciências naturais às sociais .
Sobre o tema, Souza Santos (2006, p. 36) aponta alguns obstáculos a compatibilização das ciências sociais aos critérios de cientificidade das ciências naturais, destacando que:
As ciências sociais não dispõem de teorias explicativas que lhes permitam abstrair do real para depois buscar nele, de modo metodologicamente controlado, a prova adequada; as ciências sociais não podem estabelecer leis universais porque os fenômenos sociais são historicamente condicionados e culturalmente determinados; as ciências sociais não podem produzir previsões fiáveis porque os seres humanos modificam o seu comportamento em função do conhecimento que sobre ele adquire; os fenômenos sociais são de natureza subjetiva e como tal não se deixam captar pela objetividade do comportamento; as ciências sociais não são objetivas porque o cientista social não pode libertar-se, no ato da observação, dos valores que informam a sua prática em geral e, portanto, também a sua prática de cientista.

Ocorre, entretanto, que, até mesmo na vertente que defendia a utilização da metodologia própria, são utilizados argumentos biológicos para fixar as especificidades do ser humano. Nesta linha, conclui Souza Santos (2006, p. 40) que:
Ambas as concepções de ciências sociais a que aludi pertencem ao paradigma da ciência moderna, ainda que a concepção mencionada em segundo lugar represente, dentro deste paradigma, um sinal de crise e contenha alguns dos componentes da transição para um outro paradigma científico.
Mas, de onde surgiu esta crise ?
A crise do paradigma dominante é oriunda de uma pluralidade de condições, sendo elas sociais e teóricas. Trata-se de um movimento transdisciplinar que gera uma reflexão epistemológica sobre o conceito científico na busca pela emancipação do homem através do conhecimento.
Nesta análise, notou-se a necessidade de combater a simplificação arbitrária da realidade, pois esta limitaria a possibilidade de expansão do conhecimento. Nesta linha, destaca Souza Santos (2006, p. 59):
A crise do paradigma da ciência moderna é, então uma despedida em busca de uma vida melhor a caminho de outras paragens onde o otimismo seja mais fundado e a racionalidade mais plural e onde finalmente o conhecimento volte a ser uma aventura encantada. A crise do paradigma dominante traz consigo o perfil do paradigma emergente.
Combate-se, assim, a parcelização do saber científico que traz consigo efeitos negativos, principalmente, em relação à especialização excessiva.
Afinal, no paradigma emergente, o conhecimento é expansionista e não reducionista, incentivando o compartilhamento de teorias, oriundas de campos cognitivos diversos, sem um rígido arcabouço metodológico que o regulamente. Desta forma, explica Souza Santos (2006, p. 77):
O conhecimento pós moderno, sendo total, não é determinístico, sendo local, não é descritivista. É um conhecimento sobre as condições de possibilidade. As condições de possibilidade da ação humana projetada no mundo a partir de um espaço-tempo local. Um conhecimento deste tipo é relativamente imetódico, constitui-se a partir de uma pluralidade metodológica. Cada método é uma linguagem e a realidade responde na língua em que é perguntada. Só uma constelação de métodos pode captar o silêncio que persiste entre cada língua que pergunta. Numa fase de revolução científica como a que atravessamos, esta pluralidade de métodos só esclarece o que lhe convém e quando esclarece fá-lo sem surpresa de maior, a inovação científica consiste em inventar contextos persuasivos que conduzam à aplicação de métodos fora de seu habitat natural. Dado que a aproximação entre as ciências naturais e as ciências sociais se fará no sentido destas últimas, caberá especular se é possível, por exemplo, fazer a análise filológica de um traçado urbano, entrevistar um pássaro ou fazer observação participante entre computadores. A transgressão metodológica repercute-se nos estilos e gêneros literários que presidem à escrita científica. A ciência pós-moderna não segue um estilo unidimensional, facilmente identificável; o seu estilo é uma configuração de estilos construída segundo o critério e a imaginação pessoal do cientista.

4. DA ADEQUAÇÃO DA PROPOSTA DE FEYERABEND À PÓS-MODERNIDADE
Tem-se no âmago da transição paradigmática a substituição da forma de conhecimento-regulação pelo conhecimento-emancipação .
Nesta linha, cumpre destacar que o foco da ciência moderna, no paradigma dominante , foi a busca do conhecimento através de métodos rígidos, baseados na regularidade, com intuito de comprovar e antever o comportamento dos fenômenos.
Por meio deste processo, o conhecimento adquirido tem como marca a objetividade, podendo qualquer observador obter os mesmos resultados , caso se proponha a repetir, sob as mesmas condições, todo os procedimentos adotados na investigação, criando – assim – a impressão de uma aparente segurança que marca toda a modernidade.
Ocorre, entretanto, que este mesmo paradigma científico, muito embora tenha criado inúmeras melhorias nas condições de vida (fato este incontestável!), não conseguiu trazer a emancipação pretendida pelo indivíduo, frustrando as expectativas de que fossem revelados expressivos segredos do homem e da natureza.
Neste sentido, destaca Maria da Conceição Ruivo (2006, p.597) que:
É inquestionável que o desenvolvimento científico dos últimos três séculos mudou a vida da humanidade e, pesem embora os novos problemas que com eles cresceram (desde Hiroshima ao buraco de ozônio), criou melhores condições materiais para a vida neste planeta. Mas não só grande parte da humanidade continua sem acesso aos benefícios da civilização, como é questionável que o progresso científico tenha trazido uma sabedoria de vida. Por outro lado, o fosso entre o saber científico e o saber comum não tenha deixado de aumentar.
Isto porque a perspectiva reducionista que marca o paradigma da modernidade, como já asseverado linhas acima, tem um caráter limitado que caminha em sentido contrário à complexidade real da vida.
Desta forma, mais uma vez, pontua com propriedade Maria da Conceição Ruivo (2006, p. 593-594) que:
Sabemos que os sistemas ideais, simples e passíveis de resolução exata, têm interesse pedagógico, ao passo que um problema real é, em geral, de grande complexidade. Se a procura de leis fundamentais, dos constituintes últimos da matéria, é um desafio apaixonante – o sonho de qualquer físico -, também é verdade que uma perspectiva reducionista tem uma utilidade limitada.
Isto porque a perspectiva reducionista adotada, na ciência moderna, enxerga apenas uma concepção que, na maioria das vezes, não se torna hábil a representar o completo sentido da investigação em curso, pecando por limitar demasiadamente a análise, bem como por não revelar a essência do objeto sob mais de uma vertente.
Nesta linha de intelecção, visualizando os riscos e as falhas desta perspectiva reducionista, Feyerabend destaca que inexiste uma única teoria isolada que sirva para análise da totalidade do objeto.
Neste caminho, pontua que (Feyerabend, 2007, p. 46):
Um cientista que deseja maximizar o conteúdo empírico das concepções que sustenta e compreende-las tão claramente quanto lhe seja possível deve, portanto, introduzir outras concepções, ou seja, precisa adotar uma metodologia pluralista. Ele precisa comparar idéias antes com outras idéias do que com a “experiência” e tem de tentar aperfeiçoar, em vez de descartar, as concepções que fracassaram nessa competição.
Sustenta isto, porque, segundo entende (2007, p. 46), o conhecimento é:
Um sempre crescente oceano de alternativas mutuamente incompatíveis, no qual cada teoria, cada contos de fadas e cada mito que faz parte da coleção força os outros a uma articulação maior, todos contribuindo, mediante um processo de competição, para o desenvolvimento de nossa consciência. Nada jamais é estabelecido, nenhuma concepção pode jamais ser omitida de uma explicação abrangente.
Ou seja, em outras palavras, pode-se dizer que o surgimento de teorias é bom para a ciência, uma vez que a uniformidade dificulta a crítica.
Explica, neste sentido, Feyerabend (2007, p. 52) que a condição de consistência , típica da modernidade, “elimina uma teoria ou uma hipótese não porque ela esteja em desacordo com os fatos; elimina-a porque está em desacordo com outra teoria, com uma teoria, além do mais, de cujas instâncias confirmadoras ela compartilha”.
Tal condição estimularia a preservação do que já é aceito pelo simples fato da perpetuação do que é antigo, transpassando o viés da segurança, que é típico da ciência moderna, mas que dificulta o progresso do conhecimento.
Importante frisar, entretanto, que se reconhece que esta condição de consistência não atravancaria totalmente o progresso!
Isto porque a concentração da investigação sobre apenas uma teoria traz progresso real sempre que fatos novos apontem erros, fazendo com que seja repensada a teoria acerca deste aspecto, alterando-a de forma parcial ou, até mesmo, integral.
No entanto, como já tratado, esta condição aplicada num sistema reducionista , numa postura condizente com o paradigma dominante da ciência moderna, demonstra uma simplificação forçada da complexidade real da vida , fato este que impede que o progresso galgue o êxito emancipatório pretendido nesta nova dimensão vivida, deixando de revelar fatos dependentes de teorias alternativas por terem sido estas precipitadamente excluídas .
Isto porque, segundo Feyerabend (2007, p. 54-55):
Fatos e teorias estão muito mais intimamente ligados do que admite o princípio da autonomia. Não apenas é a descrição de cada fato individual dependente de alguma teoria (a qual pode, é claro, ser muito diferente da teoria a ser testada), mas também existem fatos que não podem ser revelados, exceto com o auxílio de alternativas à teoria a ser testada, e deixam de estar disponíveis tão logo tais alternativas sejam excluídas.
Desta forma, o cientista deve sempre ter em mente que, para análise do conteúdo empírico nas investigações realizadas, necessária é a utilização de um conjunto de teorias e não apenas de uma teoria isolada.
Nesta linha, destaca Feyerabend (2007, p. 57) que:
O empirismo, ao menos em algumas de suas versões mais sofisticadas, demanda que o conteúdo empírico de qualquer conhecimento que tenhamos seja aumentado tanto quanto possível. Em consequência, a invenção de alternativas à concepção que está em discussão constitui parte essencial do método empírico. Inversamente, o fato de que a condição de consistência elimina alternativas mostra-se agora estar em desacordo não apenas com a prática científica, mas também com o empirismo. Ao excluir testes valiosos, diminui o conteúdo empírico das teorias a que é permitido permanecer (e estas, como indiquei anteriormente, em geral serão as teorias que surgiram primeiro) e diminui em especial o número daqueles fatos que poderiam mostrar suas limitações.
Tudo isto, pois se acredita que uma pluralidade de teorias é essencial para qualquer análise comprometida com a descoberta da natureza do objeto observado.
Isto porque o conhecimento deve ser obtido, preferencialmente, através de um processo de conformação de uma multiplicidade de alternativas, e não a partir da adoção de uma teoria precedente e isolada.
Tanto é verdade que defende Feyerabend (2007, p. 60-61) que:
A unanimidade de opinião pode ser adequada para uma Igreja Rígida, para as vítimas assustadas ou ambiciosas de algum mito (antigo ou moderno), ou para os fracos e voluntários seguidores de algum tirano. A variedade de opiniões é necessária para o conhecimento objetivo. E um método que estimula a variedade é também o único método compatível com a perspectiva humanitarista. (Uma vez que a condição de consistência delimita a variedade, contém um elemento teológico que reside, é claro, na adoração dos “fatos” tão característica de quase todo empirismo).
E mais: destaca ainda Feyerabend (2007, p. 63) que:
Um cientista interessado em obter o máximo conteúdo empírico, que deseja compreender tantos aspectos de sua teoria quanto possível, adotará uma metodologia pluralista, comparará teorias com outras teorias, em vez de com “experiência”, “dados” ou “fatos”, e tentará aperfeiçoar, e não descartar, as concepções que aparentem estar sendo vencidas na concepção.
Afinal, as teorias podem ser buscadas de qualquer fonte, inclusive, do passado, demonstrando que a história de uma disciplina colabora com o avanço do estágio atual da mesma. Desta forma, destaca Feyerabend que (2007, p. 64) “a separação entre história de uma ciência, sua filosofia e a própria ciência dissolve-se no ar, e isso também se dá com a separação entre ciência e não-ciência”.
Ademais, é ainda motivo de análise o fato de que nenhuma idéia é examinada em todas as suas vertentes.
Segundo Feyerabend (2007, p. 66):
Teorias são abandonadas e substituídas por explicações que estão mais de acordo com a moda muito antes de terem tido oportunidade de mostrar suas virtudes. Além disso, doutrinas antigas e mitos “primitivos” só parecem estranhos e sem sentido porque a informação que encerram ou não é conhecida ou é distorcida por filólogos ou antropólogos não familiarizados com os mais simples conhecimentos físicos, médicos ou astronômicos.
E, nesta linha, o pluralismo teorético não seria importante apenas para a metodologia, mas também para uma perspectiva humanitarista . E, sobre este fato, conclui Feyerabend (2007, p. 69) que:
O pluralismo de teorias e concepções metafísicas não é apenas importante para a metodologia; é, também, parte essencial de uma perspectiva humanitarista. Educadores progressistas têm sempre tentado desenvolver a individualidade de seus discípulos e fazer florescer os talentos e crenças específicos, e por vezes únicos, de uma criança. Uma educação deste tipo, contudo, tem como muita freqüência dado a impressão de ser fútil exercício em sonhar acordado. Pois não é necessário preparar os jovens para a vida como ela realmente é? Não significa isso que eles têm de aprender um conjunto particular de concepções, a ponto de excluir tudo mais? E, caso um vestígio de sua imaginação ainda perdure, não encontrará aplicação apropriada nas artes ou em um tênue domínio de sonhos que tem pouco a ver com o mundo no qual vivemos? Não levará esse procedimento, no final, a uma divisão entre realidade odiada e fantasias bem-vindas, entre a ciência e as artes, entre descrição cuidadosa e auto-expressão irrestrita? O argumento em favor da proliferação mostra que isto não precisa ocorrer. É possível conservar o que se poderia chamar de liberdade de criação artística e usa-la na íntegra não somente como via de escape, mas como meio necessário para descobrir, e talvez modificar, os traços do mundo em que vivemos. Essa coincidência da parte (o indivíduo) com o todo (o mundo em que vivemos), do puramente subjetivo e arbitrário com o objetivo e governado por regras, é um dos argumentos mais importantes em favor de uma metodologia pluralista.
Nesta linha de intelecção, torna-se clara a adequação da metodologia pluralista à dimensão da pós-modernidade, pois somente com a coincidência do indivíduo com o mundo em que vive é que se tornará possível à emancipação pretendida através do conhecimento.

5. CONCLUSÃO
Como visto, o sistema reducionista, que marca o paradigma dominante da ciência moderna, impõe uma simplificação da complexidade da realidade. Tal fato faz com que o progresso não consiga alcançar o êxito emancipatório esperado, deixando de revelar fatos em virtude da exclusão precipitada de teorias.
Desta forma, para evitar o aludido problema, foi destacado que o cientista deve sempre se munir de uma metodologia pluralista no intuito de viabilizar uma análise mais aprofundada do conteúdo empírico nas investigações realizadas.
Isto porque o conhecimento deve ser obtido, preferencialmente, através de um processo de conformação de uma multiplicidade de alternativas, e não a partir da adoção de uma teoria precedente e isolada.
Ademais, concluiu-se também que o pluralismo teorético não seria importante apenas para a metodologia, mas também para uma perspectiva humanitarista, tornando – assim – clara a adequação da metodologia pluralista à dimensão da pós-modernidade, pois somente com a coincidência do indivíduo com o mundo em que vive é que se tornará possível à emancipação almejada.

6. REFERÊNCIAS
ANDRÉ, João Maria. Ciências e valores: o pluralismo axiológico da ciência e o seu valor epistêmico. In: SANTOS, Boaventura de Souza (org.). Conhecimento prudente para uma vida decente: um discurso sobre as ciências revisitado. 2 ed. São Paulo: Cortez, 2006.
FEIJÓ, Ricardo. Metodologia e filosofia da ciência: aplicação na teoria social e estudo de caso. São Paulo: Atlas, 2003.
FEYERABEND, Paul K. Contra o método. Tradução de Cezar Augusto Mortari. São Paulo: UNESP, 2007.
HESENBERG, Leônidas (org.). Métodos. São Paulo: EPU, 2005.
RUIVO, Maria da Conceição. A ciência tal qual se faz ou tal qual se diz? In: SANTOS, Boaventura de Souza (org.). Conhecimento prudente para uma vida decente: um discurso sobre as ciências revisitado. 2 ed. São Paulo: Cortez, 2006.
SANTOS, Boaventura de Souza. Um discurso sobre as ciências. 4 ed. São Paulo: Cortez, 2006.
WALLERSTEIN, Immanuel. A estrutura do conhecimento ou quantas formas temos nós de conhecer? In: SANTOS, Boaventura de Souza (org.). Conhecimento prudente para uma vida decente: um discurso sobre as ciências revisitado. 2 ed. São Paulo: Cortez, 2006.

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